
Marcos Alves Lopes — Psicanalista
Minha saudação e alegria à presença manifesta de cada um nesse lugar. Saúdo também as ausências (especialmente aquela que se impõe na atenção flutuante, a ausência-presente tão cara à análise). Inicio esse momento com a seguinte inquietação: que lugar é esse, o lugar do psicanalista? De outro modo: que lugar é esse, o lugar da psicanálise hoje?
Refletir sobre essa singela pergunta suscita um saber, qual seja, o saber analítico. É dele (que não se sabe) o lugar desse discurso. Mas quem o colocaria nessa posição, senão o analisando, aquele que bebe da fonte do desejo e impõe um lugar — desconhecido — a um outro, o analista? Eis aí o lugar do psicanalista. Percebam: o psicanalista não é nada que se saiba, não possui magia nenhuma que se saiba, no entanto, ao ser evocado como suposto do desejo, ele (ainda que não saiba) ocupa um lugar. Qual? O lugar-de-falta, aquele capaz de evocar o desejo.
Deixando a pobreza do analista de lado, já que ele não é nada além de um lugar suposto de saber, o preposto do desejo do analisando, retomo a pergunta inicial: que lugar é esse, o lugar da psicanálise hoje? Desconfio que na pergunta, uma resposta advém. Que lugar é esse? — O lugar da psicanálise-do-hoje. Ao hoje, uma certa arqueologia… A psicanálise-do-hoje impõe uma pausa na fratura no Saber da humanidade, digo, respirarmos a chegada do inconsciente (a peste!) como gramática do sujeito — proposição freudiana — é um modo de buscar a arqueologia do suposto lugar do hoje na psicanálise.
A peste do inconsciente atravessou as tentativas racionais científico-ilusórias do final do século XIX e início do XX. A promessa da razão, essa que daria conta do Esclarecimento Humano, é lançada a um lugar de purgatório. Diante da peste analítica, a razão não estaria, então, no inferno das almas ardentes, tampouco no céu da promessa do Esclarecimento, mas um lugar de intermédio destinado à razão, o lugar do eu.
Introduzo aqui mais um conceito analítico, o eu. Mas o que é, pois, o eu na psicanálise? O que é o eu-razão senão uma fachada para as satisfações pulsionais? O que é eu senão a capa ornamental de um livro pornográfico? Eis a razão na filosofia, eis o eu das psicopatologias da vida hodierna.
Aqui mais uma pausa: purgar o eu não é o mesmo que o excluir. Ele existe como aquele que media as moções pulsionais e as regras morais internalizadas pelo supereu. Ele age diante de um certo princípio do prazer, barrado, em certos termos, pelo princípio da realidade. É uma espécie de ponte entre o reservatório das pulsões (isso!) e o domínio das normas internalizadas (supereu).
Ousaria cravar que a revolução do inconsciente ainda hoje, no século XXI, nos impõe um lugar de falta-a-ser. Ou seja, o eu, diante do inconsciente, pouco se reconhece quando procura dizer “eu”, de si mesmo. Isso ocorre porque há inconsciente; e ele não é nada além de um belo-feio, o estranho-familiar. Ele é a própria gramática de existência do sujeito — opera naquilo que o eu diz desconhecendo. En passant: é essa gramática o objeto de trabalho do analista. Sim, o analista não toca o inconsciente, não o vê, não o sente, mas se liga (afetivamente) pela escuta dele… Nessa escuta afetiva, ele se manifesta pela lógica própria da linguagem. Dito de outro modo: o objeto de análise são essas caras ocorrências da gramática inconsciente: atos falhos (ou ato de sucesso?!), psicopatologias cotidianas, chistes, sonhos… Esses são os objetos de análise, o material que, na atenção flutuante, ou na ausência-presente do analista, presentifica em livres associações.
Dizia que o inconsciente impõe um lugar de falta-ao-ser, o lugar do sujeito falante. E, nesse lugar, me autorizo a tomar a hipótese do Gato de Schorodinger para, em tom de linguagem, dizer da matéria da psicanálise. O gato, supostamente introduzido na caixa, estaria vivo ou morto? A hipótese é complexa, demanda debates, mas a nós analistas a questão da mecânica quântica nos liga a saberes que, de um modo ou de outro, impõe uma certa, outra, paradigmática científica. Não é possível simplesmente cravar se o gato estaria vivo ou morto antes da abertura da caixa, simplesmente por falta de evidência. Assim a introdução do vivo-morto estaria inserida no paradigma científico. Poderíamos apelar também para o comportamento da partícula e da onda no experimento da Dupla Fenda, e notaríamos que a posição do observador impõe um lugar de onda ou partícula.
Lacan utilizou a banda de Moebius para ilustrar a dinâmica (dentro e fora) do inconsciente. Isso para dizer que o inconsciente não está oculto, escondido como uma zona hermética… O inconsciente é de dentro-fora, vivo-morto… Vivo porque se manifesta, morto porque, ao se manifestar, se apaga. E nesse jogo de Fort-Da, brincadeira que Freud observou em seu netinho, o sujeito se aliena e se desaliena, aparece e some, ausência-presente. Mais que isso, nessa brincadeira repetida, o sujeito do inconsciente se manifesta, como percebeu Freud, na compulsão à repetição, o sinthoma, brincando de vivo-morto, e representando a ausência-presente do Outro/mãe.
Dizia que o inconsciente como uma gramática linguageira impõe uma falha a qualquer sistema supostamente acabado em si. O penso logo existo/ penso, logo sou, de René Descartes, essa sólida base do racionalismo emergente no renascimento, encontra uma barreira, e em seu lugar é enunciado penso onde não sou. Ou se preferirem: lá onde não sou, ex-isso. É com a máxima freudiana o “eu não é senhor de sua própria casa” que a tentativa sis-te-matemática de ocultar as falhas é posta em questão. A derrocada da razão? Não, não!… Diria: outro lugar para a razão. O inconsciente ocupa outro lugar — da ausência de completude emerge o lugar da psicanálise. É isso, pois, a psicanálise.
Ex-cola e transmissão
Dando um passe, a entrada da discussão da sobre agremiações psicanalíticas se impõe. E nesse ponto, a pergunta: que lugar é esse o da ex-cola de psicanálise?
Ele é, pois, o lugar que não se cola (ex-cola), justamente porque a passagem é singular. Nesse lugar de ex-cola, resta à singularidade se inscrever no ensino, fazendo dos tropeços (pessoal e/ou teórico), a chave arqueológica do sujeito e da ex-cola. E tomando essa a chave feita por Lacan, no retorno a Freud, na leitura da gramática do inconsciente, uma posição-sujeito advém. Não a posição do sujeito aprendiz, como se ouve por aí… Não a ideia de quem não sabe e está a aprender com o mestre. Ainda não é esse o lugar da ex-cola. Mas um lugaralgum, onde, em elo com a análise pessoal, o saber do analisante seja posto como estilo.
Lacan introduz os Escritos com a célebre frase/aforismo “o estilo é o homem”, de Buffon… É o mesmo psicanalista francês que solicita ao leitor que extraia algo daquele ensino… Ora, o que é isso? É o modo de insurgir contra um certo discurso de Mestre no ensino da psicanálise. Nosso ensino se encontra lá onde o eu não se sabe, na própria formação do estilo, o desejo de analista.
E é esse desejo do analista, o desejo que vai além da fantasia, desejo impossível de ser demandado, como ensina Sergé Cottet, que faz da análise pessoal uma passagem para a escuta, de si e do outro. É esse o desejo que nos lança ao estilo, à singularidade do sujeito. Ou seja, é da análise pessoal que pode advir o que, em nome próprio digo: o desejo-sem-cor do psicanalista. O que é, pois, o desejo do analista? Digo novamente como tenta capturar a enunciação: o desejo-sem-cor-sem-demanda é o desejo da passagem (da demanda ao desejo). O analista advém daí: da passagem de sua análise. Eis a formação do desejo-sem-cor.
Dito isso, em poucas palavras, indago que lugar é esse da ex-cola? É, pois, o lugar da produção do inconsciente, da passagem sem-cor, o lugaralgum. Brinco com esse último nome, porque, em nossa língua, lugaralgum serve de dois modos: lugar algum como nenhum lugar, mas também há, na formulação lógica da junção das palavras, um lugar qualquer. Logicamente, o lugar algum seria de fato algum lugar. No uso da língua, é como se dissessem que o lugar é “sem importância”, ou mesmo que seria “nenhum lugar”. Na inflexão entre a lógica formal e o uso, advém o lugar da ex-cola = lugaralgum.
Sem muita dificuldade, os senhores poderiam indagar: lugaralgum, que nome é esse lançado assim no meio de uma fala de pouco entendimento? Sem pressa, diria que é o lugar vivo-morto da posição de deslocamento significante. Digo com isso que o lugaralgum é o espaço da palavra — não aquela atrelada doentiamente a um significado, mas, tão somente, a palavra em seu estado flutuante — lugaralgum.
Penso lugaralgum como um conceito. Os conceitos são criações linguageiras explicados por remissão a outros conceitos… Diria: os conceitos são poemáticas. Deleuze dizia que são as redes conceituais que definem o discurso filosófico. Diria que são as redes conceituais (psicanalíticas ou não) que nos permitem deslocar o engessamento do significante. Dar passagem ao significante (deslocá-lo) é também conceituar.
Então, se me permitem, aqui, na discussão sobre a ex-cola pensar o conceito lugaralgum, diria que ele teria sentido ainda mais (no mais ainda!) se tomássemos as duas palavras em dialética: do uso e ao formal como qualidades distintas que, aos se aproximarem gradativamente, nos permitem uma sobra valiosa: o lugar da ex-cola. Na perspectiva dialética, heteros, restos sobram dessas duas posições. Elas são qualidades distintas, mas que a lalangue fez questão de imiscuir. Quero dizer com isso que são os restos entre o uso e o formalismo de lugaralgum que sustentam a ex-cola.
Extraindo implicações para a ex-cola, no lugaralgum: a análise pessoal — a ferramenta máxima de formação de analistas — e a formalidade de escola de formação estão no nó do lugaralgum. Proponho pensar assim, se me permitem: dessa dialética entre a análise pessoal e a formação, um ponto de inflexão é introduzido por meio da supervisão de casos — o sinthoma do analista, heteros. Poderíamos pensar como foi dito… Mas poderíamos pensar que o lugaralgum na ex-cola simplesmente seria a manifestação diversa de possibilidades de ocupação desse lugar. A questão que se impõe é que lugaralgum é esse que convoca o desejo de cada um que aqui está? Deixo a pergunta para que os sujeitos se desloquem nas associações do desejosa da psicanálise. E saúdo: bem-vindos à passagem ao lugaralgum — a Passagem Freudiana.
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