
Cristina Batista de Araújo (CEPAE/UFG) — Psicanalista em formação
Introdução
Entre 2003 e 2010, vivi uma travessia que não se limitou a fronteiras geográficas ou acadêmicas: atravessou também as fronteiras íntimas do coração. Fui para o Norte do Brasil no momento em que experimentava uma expansão interna, tanto pelo primeiro deslocamento Além-Goiás quanto pelo nascimento do primeiro filho, que me inaugurava como mãe. A vida, em seu estado mais fecundo, se abria em todas as direções.
A atuação como professora me levou da Rede Municipal de Educação de Marabá ao PRONERA/UFPA, junto ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), e, pelas estradas quase inexistentes do sul e sudeste do Pará, o que vivenciei foi mais que um exercício profissional: foi um mergulho humano, rito de passagem, aprendizado de mundo. Nesse tempo, percebi a força do chão que sustenta a vida, a beleza das vozes que se erguem em luta e o gesto generoso de uma comunidade que me acolheu não como visitante, mas como companheira de caminhada.
Do preconceito à escuta: o silêncio que se desfaz
Antes desse encontro, minha percepção do MST ainda era atravessada pelos rótulos que a sociedade repete: a ideia de que eram bandidos, invasores, marginais. Eu mesma só conhecia o movimento pela distância da televisão, especialmente pelas imagens do Massacre de Eldorado dos Carajás, em 1996, uma tragédia que me chegava como dado jornalístico, sem que eu compreendesse de fato os rostos e as histórias por trás daquela violência.
Essa camada de preconceito se desfez quando ouvi, pela primeira vez, as narrativas dos que me recebiam. Histórias de dor, resistência e esperança escancararam a fragilidade dos estigmas. O silêncio que antes habitava meu olhar foi dissolvido pela escuta atenta. Eu já não via rótulos, mas sujeitos históricos que falavam com a força de quem carrega a terra no corpo e na memória.
Terra e sujeito: um vínculo vital
Aprendi que a terra não é apenas recurso ou propriedade: é raiz e horizonte, memória e identidade. É ela que sustenta o ciclo de vida, que guarda as vozes de antepassados e que oferece promessa aos que lutam por dignidade. Nos olhos dos estudantes e das famílias, percebia-se a relação visceral com o chão: não havia separação entre ser humano e terra, ambos pulsavam no mesmo ritmo.
A cada aula, compreendia que ensinar só fazia sentido quando o saber do campo era reconhecido e celebrado. Nesse reconhecimento, a linguagem se mostrava em sua potência dialógica: cada enunciado dos estudantes trazia consigo ecos de vozes sociais, marcas de histórias de vida, tonalidades da terra. O que Bakhtin chama de polifonia estava ali, vivo, entre as falas que atravessavam a sala de aula — vozes do trabalho, da família, da luta política, da memória coletiva — em diálogo com os textos literários e teóricos que estudávamos. O fazer pedagógico, então, deixava de ser distante e se tornava corpo vivo, feito de vozes em interação, de cantorias que reconfiguravam sentidos, de mãos calejadas que não apenas cultivavam a terra, mas também semeavam discursos e ressignificavam o mundo.
As místicas: memória em canto e gesto
As místicas, esses rituais de memória e esperança, revelaram-se como um dos aprendizados mais intensos. Eram cantos, encenações, lembranças dos que tombaram na luta, celebração dos que resistem. A cada cerimônia, a história se refazia, atravessando gerações. Percebi que não era apenas teatro simbólico: era memória coletiva se encarnando em canto, era coragem compartilhada. Nas místicas, compreendi que preservar é também reinventar e que a educação pode beber dessa fonte para fazer da escola um lugar de memória viva.
Fazer casa do lugar: a beleza do comum
Nos assentamentos, vi como a precariedade material se transformava em abundância de afeto e solidariedade. Onde não havia estrada, fazia-se caminho; onde não havia tijolo, erguia-se casa de mãos dadas. O lar não era apenas espaço físico, mas laço de pertencimento. Foi ali que aprendi que cidadania pode ser gesto simples: dividir o pão, partilhar o trabalho, cuidar do outro. Como professora, percebi que a sala de aula não se encerrava em quatro paredes: estava espalhada nas roças, nas cozinhas coletivas, nas rodas de conversa ao entardecer.
Teoria e prática: Bakhtin no barro da estrada
Em cada enunciado dos estudantes, em cada roda de leitura, a teoria bakhtiniana ganhava corpo. O dialogismo não era conceito distante: estava vivo na alternância de vozes, nos discursos que se cruzavam da roça ao livro, da canção à teoria. Vi com clareza o encontro da linguagem com a vida, a multiplicidade de vozes que se entrelaçavam para produzir novos sentidos.
A alternância dos cursos de Licenciatura do Campo era também alternância de mundos: cada um de nós, estudantes e professora, trazia seu chão, seu falar, sua história, e tudo isso se fundia ao texto acadêmico em uma polifonia fecunda. Assim, percebi que a prática não ilustrava a teoria: ela a encarnava.
O batismo simbólico: águas que marcam
Na Serra das Andorinhas, também chamada Serra dos Martírios, recebi um batismo simbólico nas águas. Aquele gesto não foi uma simples recepção: foi rito de confiança, de pertencimento, de vínculo. Naquelas águas, algo em mim foi lavado e refeito. Eu já não era apenas professora convidada: era testemunha e partícipe de uma luta maior. O afeto contido naquele gesto ainda ecoa em mim como canto de responsabilidade.
Nunca mais a mesma
Ao recordar esse período, sei que nunca mais fui a mesma. Saí transformada: professora mais humilde, mais atenta à escuta, mais comprometida com a vida que pulsa além das teorias. Aprendi que a luta pela terra é também luta pela memória e pela dignidade. Que a educação, quando se alia à história viva de um povo, deixa de ser mera transmissão e torna-se ato de justiça. Nos caminhos de barro, nos cantos da mística, nos olhos dos meus estudantes, descobri a grande lição: ensinar é sempre aprender. E aprender, nesse contexto, é um ato de resistência e amor.
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