Santiago comeu feijão

Santiago comeu feijão

Escrito por Rusvênia Luiza – Psicanalista da Passagem Freudiana.

Os meninos queriam jogar truco e eu cedi, desconcentrada. Havia jurado não olhar para a apuração do resultado das eleições, porém, diante do que em poucos minutos ia se revelando, deixei a televisão ligada nessa sala conjugada com a copa. Embaralha, corta, desce, sobe. Combinamos os sinais, apenas das manilhas. É o que importa. Mas nem em um jogo de truco uma manilha sozinha é suficiente para ganhar. Na tevê as manilhas do senado e da câmara dos deputados iam dando o sinal: a direita é extrema, há suspiros de avanço, há uma avalanche de terror.


Se em Goiás o senador mais votado tem no currículo atropelamento e morte de civis, em São Paulo, para o mesmo cargo, o senador mais votado foi afastado por “excesso de morte”. Sem horizonte não consegui blefar. O blefe é muito necessário para jogar truco. As crianças foram crescendo na mesa, blefando mais, ganhando mais espaço. A medida em que ganhavam eu via seu prazer. Mas ali na mesa de cartas dadas estávamos jogando. E toda criança minimamente saudável deve ser capaz de experimentar prazer de múltiplas formas, com muitos objetos. Aí está a diferença radical entre adulto e criança. Na tela, uma deputada saí às ruas com uma tiara de flores e um chicote, mulher branca, de Santa Catarina. Na mesa de jogos reajo: truco, retruco, e ganho uma partida em uma cartada certa. Estava cansada mas consegui blefar.
A noite chegou sem esperança. Quase não dormi. Acordei cansada e ainda precisava dar conta de coisas importantes como organizar o lanche, colocar as mochilas no carro, acordar os meninos, acompanhar a organização no tempo pré-escola. A realidade estava completamente alterada, aconteceu algo, alguma coisa mudou e mudará de algo em diante. Já perdemos, já é tarde demais. Mesmo que, e mesmo que também, já perdemos alguma coisa de nós.


Mas ali estão os meninos, as lancheiras devem estar prontas, é dia letivo, tenho que comprar um lápis de escrever para o Santiago. O trânsito continua difícil às 6h30 da manhã. Estacionei no espaço da escola, desci do carro, fiz o que sempre faço. Não entendia direito os barulhos, a cidade parecia a mesma, as pessoas também, não dá para ver o que se passa nos corações. O pedido na padaria defronte a escola foi o mesmo: dois pães de queijo e um café por favor. Engulo, atravesso a rua, me despeço dos filhos e vou encarar o resto da manhã.


De lá pra cá fiz várias coisas mas ainda não tinha conseguido chorar. Isso quase aconteceu na quinta feira de manhã, quando encontrei meus alunos. Me lembrei de quando eu era aluna, da minha geração de colegas, dos sonhos que tínhamos em um contexto de Brasil governado por um liberal de direita que pensava em fazer justiça social olhando para as necessidades do povo. De algum jeito eu tinha mais esperança.


Mas foi ontem que a esperança veio em cheio. Após um final de semana com muitos jogos de truco, banhos de piscina, cafés da manhã e louça suja, fomos almoçar fora. Pedimos os pratos feitos e o garçom colocou na mesa, não ciente de que Santiago se recusa a comer feijão desde que se entendeu por gente, por volta de dois anos de idade. Já fiz feijão frito, tropeiro, branco, preto, carioquinha, feijoada e nada. Já fiz como salada, só o caldo, no arroz e nem pensar. Nesse restaurante, o feijão vem separado em uma xícara. Olho para o lado e Santiago mergulha a batata frita no feijão: gelo. Come. Mergulha outra batata e depois, sozinho, pega a xícara e coloca um pouco do caldo. Mistura ao arroz e come. Coloca mais, mais. E pouco a pouco colocando cada vez mais coloca todo o conteúdo da xícara e pela primeira vez, em oito anos, quando eu já havia desistido de fazê-lo provar ele prova o feijão daquele restaurante. Tento me conter, Tomás pergunta se ele gostou. Ele não quer prosa, não quer alarde, não quer comemoração. No baralho da vida, quando menos se espera, os nossos filhos vão provar o que recusaram e sentir no seu tempo o sabor do que recusaram daquilo que ainda não podiam querer.


Talvez seja isso: a vida não se resolve na apuração, nem no blefe, nem na cartada certa. Ela continua nos pequenos gestos teimosos. Uma batata mergulhada no feijão, uma criança que muda sem anunciar, uma mãe que aprende, outra vez, a não desistir. Santiago comeu feijão. E, por alguns minutos, o mundo não pareceu ter perdido tudo.
Eu não vou dizer que isso conserta o país, nem que a esperança voltou inteira. Ela veio em uma xícara, morna, separada do arroz, como quem pede licença. Veio sem discurso, sem tiara, sem trunfo. Veio na boca do meu filho, que comeu devagar, sem olhar para mim, como se nada daquilo fosse extraordinário.


E talvez seja exatamente aí que ela mora: no que insiste em acontecer apesar de tudo. No menino que cresce. No jogo que continua. No café da manhã seguinte, nas mochilas, no trânsito, no lápis que ainda preciso comprar. No direito de continuar fazendo o que sempre fizemos, a cuidar, ensinar, alimentar, resistir, mesmo quando a noite chegar sem esperança.
Santiago comeu feijão. Eu chorei, enfim. Não de alívio apenas, nem de tristeza apenas. Chorei porque percebi que ainda há coisas possíveis, que ainda há tempo para o improvável, que nossos filhos seguem nos ensinando que ninguém está perdido enquanto for capaz de provar algo novo.


E eu, que havia deixado de blefar, voltei à mesa. Embaralhei as cartas. Cortei. Dei. E esperei.

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