Por Marcos Alves – Psicanalista da Passagem Freudiana

Quando assisti ao filme Crimes de Família (2020), topei com uma experiência que foi além da mera fruição de um texto judicial, criminal. Fui lançado ao colapso silencioso de uma estrutura psíquica, à la um drama do certo mito familiar. Digo da seguinte forma: o filme me posicionou diante da fragilidade do registro Imaginário — essa dimensão onde nos confortamos ao construir a ilusão de uma família intacta, limpa e moralmente irretocável. Nesse mito, nenhuma adversidade familiar seria tolerada.

Especialmente, na trajetória da protagonista, Alicia, vi refletida a angústia de quem se sustenta por um danado de um pacto/pato inconsciente/lógico de negação: a recusa do saber, ou aquilo que Lacan denominou como a paixão da ignorância.

Nessa escuta, percebi que Daniel, o filho de Alicia, não figurava apenas como um homem acusado de crimes graves de agressão e de estupro. Ele funcionava como o objeto do narcisismo da mãe, a própria encarnação do Ideal do Eu materno.

Para defender esse tal instrumento de gozo, valia qualquer coisa! Alicia não estava defendendo apenas um indivíduo/seu objetinho, em última instância, a integridade do seu próprio eu era o que se defendia. Reconhecer a violência e a perversão do filho equivaleria a encarar o desmoronamento especular que sustentava sua própria identidade, bem como a sua posição social.

Contudo, o mito não escapa do Real — aquilo que não cessa de se increver, que resiste sempre à simbolização, o que é impossível de ser totalmente assimilado pela linguagem! O Real não pode ser tamponado indefinidamente sob o véu indelével da fantasia.

Em ruptura com o mito neurótico (in)familiar, a agressão perpetrada pelo filho e a tragédia silenciada da personagem Gladys fraturam a aparente harmonia da vida burguesa perfeita. Gladys habita a margem social e subjetiva: despojado de palavras dadas a si mesma, de recursos e de proteção – eis Gladys. É no encontro inevitável com o sintoma dessa mulher e com o sofrimento visível das vítimas que a narrativa idealizada por Alicia começa a se desmanchar.

Toda fantasia de desmancha no real!

Para não sucumbir ao desmentido, o sujeito precisa atravessar o luto da imagem idealizada. Quando Alicia abre mão da cumplicidade protetora e adoecida e aceita a verdade sobre os atos de Daniel, ela realiza o movimento semelhante à  travessia da fantasia. Não é uma simples resolução do conflito, mas a assunção de uma posição subjetiva de responsabilidade ética diante do Real, do trauma e das marcas do desejosas.

No final do filme, resta a constatação de que o principal crime familiar se dá na tentativa obcecada de acobertar a falta constitutiva da estrutura. Eis o espelho partido: quando as coberturas do Imaginário caem, só nos resta encarar a verdade nua de nossos próprios fantasmas.

Tudo que é Imaginário se desmancha no Real: ou o pior.

Referência:

CRIMES de Família. Direção: Sebastián Schindel. Argentina: Netflix, 2020. 1 vídeo online (99 min). Acesso em: 10 out. 2026.

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